Na Grécia Antiga, a figura mitológica que simbolizava a arte de curar era Asclépius. Filho de Apolo e de Coronis, este deus da Medicina inspirava os médicos da Antiguidade. Os templos a ele dedicado eram locais de cura. Um deles, localizado em Cós, viria a ser o local onde o pai da medicina ocidental, Hipócrates, iniciaria a sua carreira. De acordo com o mito, Asclépius teve 5 filhas, cada uma simbolizava uma faceta da medicina praticada na altura.

Uma destas filhas, a Higeia, representava o saneamento, a manutenção da saúde e prevenção da doença. A palavra higiene deriva do seu nome. E se é um facto que ao longo do século XX fizemos grandes conquistas na área do saneamento dos nossos espaços públicos e privados, muito pouco avançámos em termos de prevenção e manutenção da saúde. O prato enquanto espaço de responsabilidade e poder pessoal, tem sido menosprezado e esquecido da prática médica. Higeia foi esquecida, muito embora ainda conste do juramento prestado no final da licenciatura de algumas universidades médicas.

O facto é que podemos estar a assistir neste início de século XXI a um ressurgir gradual desta presença nas nossas sociedades. Os últimos anos têm testemunhado vários avanços na ciência da nutrição e do papel desta na causa e na solução das principais doenças que afligem a nossa sociedade ocidental. Uma silenciosa revolução de paradigma alimentar está em curso. As principais instituições de saúde pública já integraram as evidências acumuladas nos últimos e anos e converteram-nas em recomendações para a sociedade. Resta reunir esforços sociais, políticos e científicos para traduzir esse conhecimento em políticas de saúde concretas de forma a fazê-lo chegar ao grande público.

O manual para o fazer já existe na forma de um relatório especializado desenvolvido por um painel internacional de especialistas (AICR/WCRF) que avalia continuamente todas as evidências científicas sobre nutrição e cancro e as converte em recomendações oficiais. Segundo este relatório, 30 a 40% de todos os cancros estão diretamente relacionados com dieta e exercício físico, e poderiam ser evitados caso se seguissem as recomendações que fazem parte do relatório. O que se tem tornado consensual ao longo de todas as instituições responsáveis, é a importância de uma dieta predominantemente vegetariana para a prevenção do cancro e de muitas outras doenças crónicas, tais como diabetes, doenças cardiovasculares e outras.

A tendência emergente e crescente tem sido a de atribuir a uma dieta baseada em produtos de origem vegetal enormes benefícios tanto por representar um maior contributo de nutrientes, fibra e fitoquímicos quimiopreventivos, assim como uma diminuição do consumo de produtos de origem animal, cujo excesso pode estar na origem de muitos problemas de saúde. O facto é que praticamente metade da população mundial terá cancro até ao final da sua vida e se não buscamos recuperar a inspiração de Higeia para as nossas vidas, dificilmente modificamos este e outros cenários. Claro está, que mudá-los significa mudar hábitos profundamente enraizados na nossa cultura pós-guerra, quando as principais alterações na cadeia alimentar foram introduzidas. Os alimentos passaram a ser produzidos numa escala industrial e a preocupação passou a ser produzir muito a baixo custo e ganhar muito com isso. Quem fica a perder somos todos nós. Uma das recomendações desse relatório passa por ter uma alimentação predominantemente vegetariana.

Por outro lado, recomenda-se diminuir o consumo de carnes vermelhas e evitar carnes processadas:

Convém relembrar que estas recomendações fazem parte de um grupo de outras 10 que, segundo este relatório, caso fossem respeitadas, significaria 30 a 40% de episódios de cancro que seriam evitados. Estas recomendações são hoje transversais às principais instituições de saúde pública, tal como a American Cancer Society:

Alguns mitos foram sendo convenientemente fabricados, alguns dos quais têm dificultado a transição para uma dieta padrão mais baseada em vegetais do que produtos animais. Hoje, esses mitos têm sido também eles desmontados pelas evidências científicas tal como nos fazem mostrar algumas entidades de saúde pública.

A American Dietetic Association emitiu um comunicado em 2009 no qual esclarecia a sua posição atual em relação às dietas vegetarianas (em inglês existe uma expressão mais neutra para estas dietas: plant-based diets, a qual não tem uma tradução adequada para português). Neste comunicado, a organização de saúde pública afirma (e fundamenta) que uma “dieta vegetariana convenientemente planeada, incluindo dietas totalmente vegetarianas ou vegans, são saudáveis, nutricionalmente adequadas, e poderão prover benefícios para a saúde na prevenção e tratamento de certas doenças. Dietas vegetarianas bem planeadas são apropriadas para as pessoas durante todas as fases do ciclo de vida, incluindo gravidez, aleitamento, infância, adolescência e atletas”.

A ADA não se encontra isolada nesta posição. A Harvard School of Public Health tem feito um serviço notável de divulgação de conhecimento prático e com impacto na saúde pública. Sendo uma das maiores autoridades mundiais na pesquisa sobre nutrição e doenças, não deverá ser de estranhar que tenha assumido a responsabilidade de sugerir uma roda dos alimentos exclusivamente baseada em evidências científicas. Na sua apresentação do esquema alimentar, a Universidade não se inibiu de tecer claras críticas ao modelo criado e proposto pelo Departamento de Agricultura dos EUA, assinalando as diferenças entre os dois modelos e justificando assim porque houve a necessidade de criar um novo que “não estivesse sujeito a pressões políticas e comerciais dos lobbies da industria alimentar”.

A Harvard resume em 5 pontos fundamentais as suas recomendações alimentares. No segundo ponto podemos ler: “Go with plants (prefira vegetais). Comer uma dieta vegetariana é o mais saudável. Preencha metade do seu prato com vegetais e frutos (batatas e batatas fritas não contam como vegetais). Obtenha a maior parte da sua proteína de feijões, nozes e sementes ou tofu”. À pergunta “o que devo comer?” a Harvard resume tudo em recomendações claras e bem fundamentadas: “Quando se leva em consideração todas as evidências que temos disponíveis, o melhor conselho sobre o que comer é relativamente simples: Coma uma dieta pró-vegetariana (plant-based) rica em frutos, vegetais e cereais integrais; escolha alimentos com gorduras saudáveis; limite a carne vermelha e alimentos com gordura saturada; evite alimentos com gorduras hidrogenadas. Beba água ou bebidas saudáveis e limita bebidas açucaradas e sal.”

A juntar-se a estas recomendações, um dos últimos números da revista médica The Medical Journal of Australia foi inteiramente dedicado a responder à pergunta: “Será uma dieta vegetariana adequada?“. A revista (científica e médica, entenda-se) faz um excelente trabalho em reunir as evidências que existem em relação aos benefícios de uma dieta vegetariana assim como em esclarecer os seus pontos sensíveis, alguns mais justificados do que outros. Vários mitos clássicos associados a uma dieta destas são igualmente desmontados com base nas mais recentes evidências científicas. Os capítulos estão divididos por categorias relevantes tais como: proteínas, ferro, zinco, omega-3, vitamina B-12. Em todos eles são esclarecidas as possíveis dúvidas de como se obter níveis aceitáveis desses nutrientes. Um conjunto de conselhos práticos são apresentados na revista, reforçando a desconstrução das ideias erradas que têm sido alimentadas pela opinião geral.

Os autores dos artigos da revista respondem assim à pergunta inicialmente feita com um redondo “sim”. Em sintonia clara com a mudança de paradigma que está atualmente em curso, o artigo introdutório conclui dizendo que “nem todos precisam ou querem tornar-se vegetarianos, mas reduzir a nossa dependência da carne é uma boa receita para a nossa saúde e do nosso planeta. Dietas dominadas por alimentos vegetais são quase certamente o caminho do futuro“.

Mais recentemente (12/2013) a FAO (Agência da ONU para a Alimentação e Agricultura) publicou um relatório onde nos dão conta de que 70% das doenças humanas que apareceram nas últimas décadas são de origem animal e devem-se em parte à procura de alimentos de proveniência animal.

De acordo com essa agência e é necessária uma abordagem mais “holística” para a gestão das ameaças relacionadas com doenças na ligação entre animais, humanos e ambiente. “O aumento da população, a expansão agrícola e a existência de cada vez mais cadeias de abastecimento alimentar globais alteraram dramaticamente a forma como as doenças emergem, como passam de uma espécie para outra e como se espalham”, alerta o relatório.

“Os muitos desafios discutidos nesta publicação requerem uma maior atenção à prevenção“, pode ler-se no relatório. “A atitude de deixar tudo como está já não é suficiente“.

A FAO advoga por isso uma abordagem de “Uma Saúde“, que olhe para as interligações entre fatores ambientais, saúde animal e saúde humana, juntando profissionais de saúde, veterinários, sociólogos, economistas e ecologistas para trabalhar estes assuntos.

Segundo o mito grego, Asclépius foi morto por Zeus com um relâmpago por ter ressuscitado Hipólito dos mortos em troca de algum ouro. Parece aqui também haver uma mensagem para os nossos tempos. Afinal, por ouro tantas coisas são sacrificadas. Acima do ouro, esperemos que surja rapidamente um tempo inspirado por Higeia, onde a saúde e a auto-responsabilidade estão acima dos interesses que em última análise, assim o diz o mito, acaba por ser a morte do artista.

 

Referências:

http://www.dietandcancerreport.org/

http://www.dietandcancerreport.org/expert_report/recommendations/index.php

http://www.aicr.org/

http://www.wcrf.org/

http://www.dietandcancerreport.org/expert_report/recommendations/recommendation_plant_foods.php

http://www.dietandcancerreport.org/expert_report/recommendations/recommendation_animal_foods.php

http://www.cancer.org/Healthy/EatHealthyGetActive/ACSGuidelinesonNutritionPhysicalActivityforCancerPrevention/acs-guidelines-on-nutrition-and-physical-activity-for-cancer-prevention-summary

http://www.eatright.org/

http://www.eatright.org/about/content.aspx?id=8357

http://www.hsph.harvard.edu/nutritionsource/healthy-eating-plate/healthy-eating-plate-vs-usda-myplate/index.html

http://www.hsph.harvard.edu/

http://www.hsph.harvard.edu/nutritionsource/healthy-eating-plate/quick-tips-healthy-eating-plate-pyramid/index.html

http://www.hsph.harvard.edu/nutritionsource/what-should-you-eat/

www.mja.com.au

https://www.mja.com.au/open/2012/1/2

https://www.mja.com.au/open/2012/1/2/practical-tips-preparing-healthy-and-delicious-plant-based-meals

http://www.fao.org/news/story/en/item/210621/icode/

http://www.fao.org/docrep/019/i3440e/i3440e.pdf

2017-10-24T16:43:25+00:00 0 Comments

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