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“Vários estudos clínicos têm mostrado que intensificar a quimioterapia não melhora os resultados em mulheres com cancro do ovário avançado. Temos por isso de explorar novas avenidas. Nós pensamos que a abordagem combinatória entre a quimioterapia e a imunoterapia será o caminho a seguir”. Quem o diz é  George Coukos, MD, PhD, diretor do Ovarian Cancer Research Center na Universidade da Pensilvânia. Esta afirmação vem no seguimento dos resultados promissores de um estudo recente desenvolvido por uma equipa de investigação integrada por este cientista, no qual se avaliou a segurança e eficácia de um tratamento em duas fases com a utilização de uma vacina de células dendríticas no tratamento do cancro do ovário. A maior parte dos pacientes de cancro do ovário (60%) são diagnosticados numa fase já avançada a qual não costuma responder às terapias existentes Enquanto mulheres diagnosticadas numa fase inicial da doença têm uma taxa de sobrevivência a 5 anos por volta dos 90%, este número desce para menos de 10% nos casos em fases avançadas.

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Um estudo recente publicado na revista científica OncoImmunology traz alguma esperança para estes casos mais difíceis de cancro do ovário. Investigadores da Universidade da Pensilvânia mostraram que um tratamento personalizado em duas fases – uma vacina de células dendríticas utilizando o tumor do próprio paciente seguido de uma terapia com linfócitos T – desencadeia uma resposta imunitária anti-tumoral nestes pacientes. Quatro de seis pacientes tratados neste estudo responderam à terapia. “O que nós provámos neste estudo é que representa uma estratégia de tratamento segura”, diz  Lana Kandalaft, PharmD, MTR, PhD, uma das autoras. “É um passeio ao parque para os pacientes, especialmente quando comparado com os tratamentos convencionais para o cancro do ovário – literalmente, alguns pacientes deixam a clínica e vão passear ao parque depois do tratamento”.

Em que consiste o tratamento?

dendrosO referido estudo consistiu no tratamento de 6 mulheres com cancro do ovário em fase avançada com um protocolo de imunoterapia em duas fases no qual foi produzida uma vacina de células dendríticas (VCD) a partir do tecido do tumor do próprio paciente. O cancro de todas estas mulheres tinha aumentado após tratamento convencional com quimioterapia. A primeira etapa consiste na preparação de uma VCD para cada paciente. Células dendríticas são recolhidas de cada paciente através de aférese (colheita selectiva de um componente sanguíneo). De seguida estas células são expostas ao extrato do tumor do próprio paciente, o que programa as células dendríticas a identificarem o agente a combater. Depois desse processo concluído, cada paciente recebeu a sua respetiva vacina com uma combinação de quimioterapia com bevacizumab e ciclofosfamida. Uma vez que as células dendríticas funcionam como generais do sistema imunitário, podem induzir as outras células a combaterem os agentes patogénicos identificados.

Dos 6 pacientes que receberam a vacina, 4 desenvolveram uma resposta imunitária anti-tumoral, o que indicou que a abordagem estava a resultar. Um dos pacientes não apresentava sinais visíveis da doença no início do estudo uma vez que tinha sido com sucesso removido durante a cirurgia. Até hoje continua em remissão, 42 meses depois do tratamento com a vacina. Os outros 3 que tiveram uma resposta imunitária ainda apresentaram vestígios residuais da doença e prosseguiram para a segunda fase do tratamento. A equipa recolheu linfócitos T de cada uma destas 3 mulheres. De seguida, estas células foram estimuladas em laboratório para se multiplicarem, aumentando assim em muito o seu número, sendo posteriormente reintroduzidas nas pacientes. Uma vez que estes linfócitos T já tinham sido treinados pelas células dendríticas da vacina a atacar as células do tumor, isso permite uma amplificação da resposta imunitária anti-tumoral. Das duas mulheres que com este procedimento mostraram uma resposta favorável, uma continua com a doença estável enquanto a outra teve uma resposta completa ao tratamento.

Os investigadores dizem que ainda é demasiado cedo para se saber ao certo se esta terapia será eficaz num número grande de pacientes com cancro do ovário, mas os primeiros resultados são muito promissores. A partir destes resultados encorajadores, a equipa de investigadores deu início a um estudo clínico maior no qual já admitiram cerca de 25 mulheres estando aberto a mais voluntários. Informações sobre o estudo clínico em curso podem ser encontradas aqui.

Alguns factos sobre o cancro do ovário e como prevenir

wcfrovarianO cancro do ovário é o sexto cancro mais comum nas mulheres em todo o mundo. É mais frequente nos países mais desenvolvidos. Este cancro representa a sétima causa de morte por cancro nas mulheres em todo o mundo. De acordo com o relatório Food, Nutrition, Physical Activity, and the Prevention of Cancer: a Global Perspective, os fatores que levam a um maior crescimento em altura nas mulheres, ou as suas consequências, são uma causa provável de cancro do ovário. Existe também uma evidência limitada que sugere que consumir vegetais não amiláceos e dar de mamar pode proteger contra este cancro. Eventos da vida que protegem a mulher do cancro do ovário incluem: primeira menstruação tardia, ter filhos e menopausa mais cedo: todos estes acontecimentos diminuem o número de ciclos menstruais e por isso a exposição ao longo da vida ao estrogénio.

can-i-give-my-dog-milkNíveis elevados de galactose, o açúcar liberto pela digestão da lactose no leite, de acordo com alguns estudos poderão criar danos nos ovários o que pode levar ao cancro. Uma análise recente de 12 estudos prospetivos que incluem mais de 500000 mulheres, sugere que mulheres com consumos muito elevados de lactose – equivalente a 3 copos de leite por dia – têm um risco maior de cancro do ovário, quando comparadas com mulheres que consomem menos lactose.

veggiesOutro estudo avaliou o papel da alimentação na sobrevivência de doentes com cancro do ovário. Os autores descobriram que um consumo elevado de frutos e vegetais ou só vegetais (em particular os vegetais crucíferos) aumentam as probabilidades de sobrevivência. Cereais integrais também parecem contribuir para a sobrevivência. Por outro lado, o consumo de carne em geral e carnes vermelhas e processadas em específico está associado a uma menor taxa de sobrevivência. Um dos autores diz que “as descobertas deste estudo sugerem que os padrões alimentares 3 a 5 anos anteriores ao diagnóstico da doença têm o potencial de influenciar o tempo de sobrevivência. Os padrões alimentares que parecem oferecer uma vantagem de sobrevivência depois de um diagnóstico de cancro do ovário refletem características normalmente encontradas em dietas baseadas em alimentos de origem vegetal (plant-based diets). Essas dietas geralmente contêm níveis altos de constituintes que protegem do cancro e minimizam a ingestão de substâncias cancerígenas presentes nos alimentos”.

David S. Alberts, MD, director do Arizona Cancer Center, comenta: “Os autores providenciam novas evidências de que fatores ligados à dieta, em particular frutos e vegetais, carnes vermelhas e processadas e leite, podem influenciar a sobrevivência ao cancro do ovário. Estas descobertas corroboram outros anteriores e refletem um crescente corpo de literatura disponível que sugere que a dieta pode influenciar o risco de cancro do ovário“.

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Referências:

 http://www.landesbioscience.com/journals/53/article/22664/

http://www.uphs.upenn.edu/news/News_Releases/2013/01/kandalaft/

http://clinicaltrials.gov/ct2/show/NCT01132014?term=ocdc&rank=1

http://www.med.upenn.edu/apps/faculty/index.php/p19864

http://www.med.upenn.edu/apps/faculty/index.php/g361/p8274004

http://www.cancerresearchuk.org/cancer-info/cancerstats/types/ovary/survival/ovarian-cancer-survival-statistics

http://www.dietandcancerreport.org/cancer_resource_center/er_full_report_english.php

http://www.dietandcancerreport.org/cancer_resource_center/downloads/chapters/chapter_07.pdf

http://cebp.aacrjournals.org/content/15/2/364.long

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20184987

http://www.eurekalert.org/pub_releases/2010-03/ehs-dfi030110.php

2017-10-24T16:43:21+00:00 0 Comments

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