130128142849-largeMesmo que quiséssemos seria difícil criar uma conjugação tão perfeita de alimentos de risco que garantem as melhores condições para que o cancro e outras doenças se possam desenvolver. Aquilo que chamamos de dieta ocidental apela aos sentidos e aos comportamentos aditivivos e muito pouco à lucidez e à saúde. Não passa afinal de uma dieta “acidental”. É de facto um acidente aquilo que criámos para decorar as nossas mesas e para afogar as nossas mágoas. O símbolo máximo desta criação acidentada é a imagem de um hamburguer com batata frita e refrigerante. Tudo se conjuga perfeitamente para produzir doença.

Já sabíamos que cozinhar proteína animal a temperaturas elevadas (como os grelhados ou os churrascos) poderá aumentar o risco de cancro da próstata, mas agora um estudo recente vem acrescentar os alimentos fritos à equação de risco. De acordo com o estudo, o consumo regular de alimentos fritos tais como as batatas fritas, a galinha frita ou os donuts está associado a um risco superior de cancro da próstata, sendo que o efeito parece ser mais forte relativamente a formas mais agressivas da doença.

Os dados

janetA equipa liderada por Janet L. Stanford, Ph.D. descobriu que os homens que comeram batatas fritas, galinha frita, peixe frito e/ou donuts pelo menos uma vez por semana apresentaram um risco superior de cancro da próstata quando comparados com homens que comeram esses alimentos menos do que uma vez por mês. Específicamente, aqueles homens que comeram um ou mais desses alimentos todas as semanas mostraram um aumento de risco que variou entre os 30 e os 37%. O consumo semanal desses alimentos estava também associado a um ligeiro aumento de risco do cancro da próstata mais agressivo. Stanford diz que “a ligação ente o cancro da próstata e certos alimentos fritos parece ser limitada ao consumo mais elevado – definido como mais do que uma vez por semana – o que sugere que o consumo regular de alimentos fritos confere um risco particular para o desenvolvimento do cancro da próstata”.

Os mecanismos

Os mecanismos possíveis associados ao risco superior de cancro da próstata incluem:

  • formation-of-HCA-with-heatÓleos aquecidos a altas temperaturas: classificado pela OMS como um procedimento provavelmente cancerígeno (Grupo 2A), os óleos aquecidos a altas temperaturas produzem mais de 50 compostos orgânicos voláteis, sendo alguns conhecidos por serem poderosos mutagénicos e verdadeiramente cancerígenos nos seres humanos, tais como: benzeno, antraceno, acroleína e formaldeído, entre outros.
  • Proteína animal aquecida a altas temperaturas: quando as carnes dos músculos de animais é exposta a temperaturas altas, formam-se dois tipos de compostos altamente cancerígenos chamados aminas heterocíclicas (HCA) e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAH). Isto resulta do contacto da carne (ou do peixe) com uma chama (como nos churrascos) ou superfícies muito aquecidas. 
  • Alimentos ricos em hidratos de carbono aquecidos a altas temperaturas: a acrilamida é produzida através da reação do calor sobre os alimentos ricos em hidratos de carbono e em particular num aminoácido chamado asparagina, quando a temperatura excede os 120 graus centígrados. Embora já se conhecesse esta substância, tendo sido mesmo desde 1994 classificada pela IARC como pertencendo ao grupo de substâncias provavelmente cancerígenas (grupo 2A), seria só em 2002 que um estudo sueco anunciaria ter detetado a presença de acrilamida nos alimentos ricos em hidratos de carbono que tivessem sido aquecidos tais como: batatas fritas e pão.

Todos estes produtos surgem em maior concentração quanto maior for o tempo de fritura e na reutilização dos óleos. Além disso, alimentos cozinhados com temperaturas elevadas contêm igualmente níveis elevados de produtos de glicação avançada (AGE), os quais estão associados à inflamação crónica e ao stress oxidativo, dois fatores de risco para o cancro e outras doenças. Alimentos fritos têm as maiores concentrações de AGEs. Um peito de galinha frito por cerca de 20 minutos contém mais de 9 vezes a quantidade de AGEs produzidos num peito de galinha cozido durante uma hora, por exemplo.

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Para o estudo, a equipa de investigadores analisaram os dados de dois estudos de controlo-caso anteriores que incluía um total de 1549 homens diagnosticados com cancro da próstata e 1492 indivíduos como grupo de controlo com idades compreendidas entre os 35 e os 74 anos. De acordo com os autores este terá sido o primeiro estudo a avaliar a relação entre o consumo de alimentos fritos e o risco de cancro da próstata. Estudos anteriores já haviam relacionado o consumo destes alimentos com o risco de cancro da mama, cabeça, pescoço e esófago. Uma vez que alimentos fritos são geralmente consumidos fora de casa, é possível que a ligação entre estes alimentos e o risco de cancro da próstata seja um indicador de um consumo elevado de fast-food em geral, dizem os autores referindo o aumento dramático nos restaurantes de fast-food e o respetivo consumo nas últimas décadas.

O estudo foi financiado pelo National Cancer Institute e o Fred Hutchinson Cancer Research Center.

Sendo o cancro da próstata o segundo cancro mais comum nos homens em todo o mundo (sendo o mais comum nos países desenvolvidos), a sua incidência não é linear nem homogénea entre as várias regiões do mundo. Essas variações dão-nos pistas para o que poderão ser os fatores responsáveis por tais diferenças. Tal como o cancro da mama, o cancro da próstata é maioritariamente mais comum em países desenvolvidos, podendo a sua taxa de incidência ser cerca de 25 vezes superior nestes países em relação aos países de menores rendimentos. As taxas de incidência ajustadas pela idade podem chegar aos mais de 100 casos em cada 100000 habitantes nos EUA contrastando com menos de 10 na maioria da Ásia. Os estudos feitos em populações migratórias apontam para uma forte influência de fatores ambientais no risco do cancro da próstata.

A Hamburger with Fries and a Drink

 

Referências:

http://www.fhcrc.org/en/news/releases/2013/01/eating-deep-fried-foods-associated-with-risk-of-prostate-cancer.html

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/pros.22643/abstract

http://monographs.iarc.fr/ENG/Classification/ClassificationsAlphaOrder.pdf

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12166997

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1972548/

2017-10-24T16:43:21+00:00 0 Comments

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