fat-earth_mainSomos hoje uma sociedade de peso. Aumentamos a olhos vistos e de forma acelerada de tamanho e com isso os nossos problemas também. A obesidade é um problema sério de saúde pública. Em certas regiões como os EUA a obesidade atinge já mais de um terço da população (35,7%). De facto, de acordo com esta tendência crescente global nas taxas de obesidade, um relatório feito em 2005 prevê que esta geração atual de crianças pela primeira vez em mais de 200 anos poderá ter uma esperança de vida inferior aos seus pais. Alguns factos sobre a obesidade:

  • O excesso de peso e a obesidade representam o 5º principal risco de mortes a nível global.
  • Pelo menos 2,8 milhões de adultos morrem a cada ano como resultado do excesso de peso ou obesidade.
  • Em 2008 mais de 1,4 mil milhões de adultos tinham excesso de peso.
  • Mais de um em cada dez pessoas eram obesas em 2008.
  • Mais de 40 milhões de crianças com idades inferiores a 5 anos tinham excesso de peso em 2010.
  • O excesso de peso e a obesidade estão relacionados com mais mortes à escala global do que a falta de peso por carências alimentares. 65% da população mundial vive em países onde o excesso de peso e a obesidade matam mais do que a falta de peso. Por outras palavras morremos mais por comer demais do que demenos.
  • 44% dos casos de diabetes, 23% de doença cardíaca isquémica e entre 7 a 41% de certos cancros são atribuídos ao excesso de peso e obesidade.

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Cancro, doenças cardiovasculares e diabetes, todas estão relacionadas com fatores de risco em grande parte relacionados com a dieta. De facto, estas doenças estão intimamente relacionadas, formando entre si o que poderia ser chamado de uma “tríade de doenças“, todas fortemente dependentes das escolhas alimentares que fazemos. No que diz respeito à obesidade sabemos atualmente que pelo menos 20% de cancros na mulher e 14% no homem estão relacionados com a obesidade. A obesidade é responsável por 28% de todos os casos de cancro do pâncreas e 49% dos cancros do endométrio na mulher.

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Os mecanismos pelos quais o excesso de gordura corporal promove o cancro não são inteiramente conhecidos mas conhecem-se já alguns. Contrariamente ao que se poderia pensar, as células adiposas compõe um tecido que está longe de ser inerte. Na realidade, comporta-se como um tecido vivo, produzindo uma série de hormonas com implicações significativas no metabolismo. Estimulam a secreção de insulina ao aumentar os níveis de açúcar no sangue. Quando em excesso a insulina promove a proliferação das células, nomeadamente as de cancro. Além disso, esse aumento dos níveis de insulina no sangue é acompanhado pela produção de uma outra hormona produzida no fígado, a IGF-1, que é também um poderoso fator de promoção de crescimento do cancro. As hormonas sexuais são também estimuladas a níveis superiores por estas células adiposas, o que por si representa um risco acrescido em cancros hormono-dependentes. A isto tudo acrescenta-se o facto de aumentarem os níveis de inflamação no organismo, outra das condições necessárias ao cancro. O micro-ambiente orgânico torna-se assim o mais favorável possível ao desenvolvimento de doenças crónicas graves.

Philipp Scherer Ph.D.

Philipp Scherer, Ph.D.

Dois novos mecanismos biológicos foram descobertos os quais podem contribuir para a compreensão da relação entre o excesso de peso e o risco de certos cancros. De acordo com os resultados de um estudo desenvolvido por uma equipa de investigadores liderada pelo Dr. Philipp Scherer, diretor do Touchstone Center for Diabetes Research na UT Southwestern, algumas substâncias produzidas pelas células de gordura perto de tumores promovem o seu crescimento e desenvolvimento. Uma dessas substâncias, a endotrofina mostrou estimular o crescimento de cancros da mama em animais. Quando a equipa bloqueou a endotrofina produzida por essas células com a utilização de um anticorpo, não só o tumor diminui de tamanho como isso evitou que criasse metástases noutras partes do corpo. O Dr. Scherer avisa que “nem toda a gordura é má, mas a endotrofina é mais abundante nos tecidos gordos pouco saudáveis. No contexto do crescimento do tumor, a endotrofina produzida nas células de gordura estimula o crescimento de vasos sanguíneos os quais por sua vez alimentam o cancro e permitem ao tumor crescer mais rapidamente”. O investigador conclui dizendo que “enquanto ganhamos peso não só aumentamos as possibilidades de ter cancro, mas também diminuímos as hipóteses de vencer com sucesso o cancro“.

Finding – fighting – the fat that fuels cancer from UT Southwestern on Vimeo.

Outras descobertas relevantes para a compreensão da relação entre a obesidade e o cancro foram feitas pela equipa liderada por Kevin Gardner, investigador do National Cancer Institute. Uma proteína associada a condições de desequilíbrio metabólico tais como diabetes ou obesidade, pode ter um papel no desenvolvimento de formas agressivas de cancro da mama. Este desequilíbrio é causado com frequência por um consumo elevado de hidratos de carbono (simples), o que pode levar a uma super-ativação de uma molécula chamada proteína de ligação terminal-C (CtBP). Esta ativação por outro lado pode aumentar o risco de cancro da mama.

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A inibição da CtBP no cancro da mama triplo negativo através de uma molécula.

Estudos anteriores feitos por esta equipa descobriram que a CtBP inibe a expressão de um gene associado ao cancro da mama (BRCA1). Estes resultados sugerem que a obesidade e o excesso de peso podem contribuir para o cancro da mama diminuindo a expressão do gene supressor de tumor BRCA1 como resposta a um consumo elevado de hidratos de carbono. O novo estudo de Gardner descobriu que em condições onde se diminui os níveis de CtBP, a reparação do ADN aumentou e as células atingiram estabilidade e controlo do crescimento. Por outro lado, pacientes com níveis elevados desta proteína apresentaram uma sobrevivência diminuída. Também mostraram que um inibidor molecular capaz de se ligar à CtBP é capaz de reverter os efeitos repressivos da proteína em células de cancro da mama mesmo em condições de alto consumo de hidratos de carbono. O investigador conclui dizendo que “modificando a dieta e mantendo uma dieta saudável, combinado com uma forma de inibir a atividade da CtBP, poderá um dia permitir quebrar a ligação entre o cancro e a obesidade”.

 

Alguns vídeos acerca do problema da obesidade:

 

 

 

Referências:

http://www.utsouthwestern.edu/newsroom/news-releases/year-2013/feb/endotrophin-scherer.html

http://www.jci.org/articles/view/63930

http://www.cancer.gov/newscenter/newsfromnci/2013/CtBPbreastcancer?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+ncinewsreleases+%28NCI+News+Releases%29&utm_content=FeedBurner

http://www.nature.com/ncomms/journal/v4/n2/full/ncomms2438.html

http://www.nytimes.com/2005/03/17/health/17obese.html

http://blog.aicr.org/2012/08/02/cancer-diabetes-and-heart-disease-a-paradigm-shift/

http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs311/en/

http://www.cdc.gov/obesity/data/adult.html

http://theweightofthenation.hbo.com/films

2017-10-24T16:43:20+00:00 0 Comments

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