HygeiaHaverá um tempo em que Medicina e estilo de vida serão equivalentes. O estilo de vida é determinante na redução das probabilidades de virmos a ter cancro e outras doenças. As evidências mostram-nos que 90 a 95% de todos os cancros dependem de fatores externos modificáveis. Além disso, cada vez mais surgem evidências que mostram a importância do estilo de vida na sobrevivência após um diagnóstico de cancro.

Embora o cancro da próstata afete milhões de homens no mundo inteiro, pouco se sabe acerca da relação entre as dietas dos doentes a seguir a um diagnóstico e a progressão da doença. Um estudo recente, desenvolvido por investigadores da Universidade da Califórnia (UCSF), sugere que homens com cancro da próstata podem aumentar de forma significativa a sua taxa de sobrevivência fazendo alterações simples na sua dieta. Substituindo gorduras animais e hidratos de carbono simples por gorduras vegetais saudáveis (tais como azeite, oleaginosas, sementes e abacates), homens com a doença revelaram um risco marcadamente inferior de desenvolver cancro da próstata letal e de morrer de outras causas, de acordo com o estudo.

Avocado_nuts_oliveoil_high_vitaminE-1024x682A pesquisa, que envolveu cerca 4600 homens com cancro da próstata não-metastizado, foi publicado na JAMA Internal Medicine e poderá ajudar na elaboração de recomendações nas dietas de homens com a doença. De acordo com Erin L. Richman, a investigadora principal, “o consumo de óleos saudáveis e oleaginosas aumenta os níveis de antioxidantes e reduz a insulina e a inflamação, o que poderá impedir a progressão do cancro da próstata. Os efeitos benéficos de gorduras insaturadas assim como os efeitos prejudiciais das gorduras saturadas e hidrogenadas na saúde cardiovascular são bem conhecidos. Agora a nossa pesquisa mostrou potenciais benefícios adicionais de se consumirem gorduras insaturadas por homens com cancro da próstata”. 

Em anos recentes têm-se acumulado evidências que sugerem que a dieta poderá ser uma forma importante de homens com cancro da próstata tomarem um papel ativo na evolução da sua doença e na saúde em geral. Estudos que avaliaram alterações na dieta mostraram benefícios: dos cinco estudos que foram realizados para avaliar o efeito de uma dieta à base de vegetais, quatro mostram ser eficazes no controlo do cancro da próstata (123456). Outro estudo conclui que pacientes com cancro da próstata de estágio inicial optando por uma vigilância ativa, poderão ser capazes que evitar ou adiar tratamento convencional por pelo menos 2 anos fazendo alterações significativas na sua dieta e estilo de vida.

foods-_high_in_saturated_fatPor outro lado, o consumo de carnes vermelhas, produtos lácteos e gorduras saturadas parecem estar associados a um aumento de risco de cancro da próstata. Pesquisas feitas ao cancro da próstata em fases avançadas sugerem que o consumo de gordura poderá ser relevante na progressão da doença, mas o estudo desenvolvido pela equipa da UCSF é o primeiro a examinar o consumo de gordura após um diagnóstico e a sua relação com o risco de cancro da próstata letal e sobrevivência em geral.

O novo artigo analisou o consumo de gorduras saturadas, monoinsaturadas, poliinsaturadas e hidrogenadas, assim como gorduras de fontes animais e vegetais. Os dados foram obtidos a partir do Health Professionals Follow-up Study, o qual teve início em 1986, sendo desenvolvido pela Harvard School of Public Health e financiado pelo National Cancer Institute. O estudo envolveu 4557 homens diagnosticados com cancro da próstata não-metastizado entre 1986 e 2010. Durante o período no qual decorreu o estudo, morreram 1064 homens, principalmente de doença cardiovascular (31%), cancro da próstata (21%) e outros cancros (21%). De acordo com os resultados do estudo, aqueles que substituíram 10% das suas calorias diárias totais de hidratos de carbono por gorduras vegetais saudáveis tiveram uma diminuição de 29% no risco de desenvolverem cancro da próstata letal e um risco 26% inferior de morrer de todas as causas.

Acrescentar uma porção diária de óleo saudável (1 colher de sopa) esteve associado a um risco 29% inferior de desenvolver cancro da próstata letal e um risco 13% inferior de morte, de acordo com os autores. Adicionar uma porção de oleaginosas por dia esteve associado a uma diminuição de 18% no risco de cancro da próstata letal e um risco 11% inferior de morte. O estudo foi ajustado para fatores como idade, tipos de tratamento médico, índice de massa corporal, fumar, exercício e outros fatores de dieta, pressão alta, colesterol na altura do diagnóstico e outras condições de saúde.

instead_of_try_0

Sugestão de substituição de alimentos de Erin Richman.

De acordo com Richman, “as nossas descobertas suportam o aconselhar-se homens com cancro da próstata a seguirem uma dieta recomendada para prevenir doenças cardiovasculares na qual hidratos de carbono (simples) são substituídos por óleos insaturados e oleaginosas no sentido de se reduzir o risco de mortalidade”.

healthy-fatsEm síntese, o estudo refere a importância de se substituírem gorduras saturadas e animais por gorduras vegetais saudáveis na sobrevivência ao cancro da próstata. Além disso, sugere-se que a redução do consumo de hidratos de carbono simples possa igualmente ser benéfico na diminuição de risco de mortalidade. Estes últimos, por terem um índice glicémico elevado, são responsáveis por um aumento dos níveis de açúcar no sangue, de insulina, da inflamação e dos níveis de IGF-1, todos associados a um risco superior de cancro. Aqui pode ouvir-se uma entrevista aos autores do estudo.

Sendo o cancro da próstata o segundo cancro mais comum nos homens, a sua incidência não é linear nem homogénea entre as várias regiões do mundo. Essas variações dão-nos pistas para o que poderão ser os fatores responsáveis por tais diferenças. Tal como o cancro da mama, o cancro da próstata é maioritariamente mais comum em países desenvolvidos, podendo a sua taxa de incidência ser cerca de 25 vezes superior nestes países em relação aos países de menores rendimentos. As taxas de incidência ajustadas pela idade podem chegar aos mais de 100 casos em cada 100000 habitantes nos EUA, contrastando com menos de 10 na maioria da Ásia.

Os estudos feitos em populações migratórias apontam para uma forte influência de fatores ambientais no risco do cancro da próstata. Populações que emigraram para os EUA vindos do Japão e da China, com taxas de incidência tradicionalmente muito baixas, viram os números de casos de cancro da próstata aumentar até se aproximarem das taxas de incidência do país de destino em menos de duas gerações. Um estudo mais recente avaliou a incidência de cancro em indianos no seu país de origem e em países para onde emigraram, concluindo que a incidência é maior nestes últimos, sendo a dieta um fator central nessas diferenças.

Incid Localiz

Das evidências que existem disponíveis em relação aos fatores de risco associados ao cancro da próstata, todas parecem indicar que uma dieta pobre em gorduras, rica em vegetais e frutos, evitando-se o consumo de alimentos hipercalóricos, carne, produtos lácteos e cálcio, é provavelmente eficaz na prevenção do cancro. Segundo o painel responsável pelo relatório “Food, Nutrition, Physical Activity and the Prevention of Cancer”, as evidências mais consistentes sugerem que alimentos que contêm licopeno ou selénio provavelmente diminuem o risco de cancro da próstata. Por outro lado, alimentos com níveis elevados de cálcio são uma causa provável deste cancro.

Captura de Tela 2012-11-02 às 13.16.15

O estilo de vida na prevenção e na sobrevivência ao cancro da próstata continua a mostrar ser uma estratégia fundamental para combater este e todos os outros cancros.

 

Referências:

http://archinte.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=1696179

http://www.ucsf.edu/news/2013/06/106561/men-prostate-cancer-should-eat-healthy-vegetable-fats

http://archinte.jamanetwork.com/multimedia.aspx#AuthorInterviews

http://profiles.ucsf.edu/erin.richman

http://onlinelibrary.wiley.com/store/10.1111/j.1365-277X.2009.00946.x/asset/j.1365-277X.2009.00946.x.pdf?v=1&t=h8wyba79&s=409ce4157420939348c13c2fcee48fa7cc56be8d

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16880425

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11490320

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12235642

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16094059

http://ict.sagepub.com/content/5/3/214.short

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18602144

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17704029

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/9507851

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22831983

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1972548/

http://ije.oxfordjournals.org/content/37/1/147.long

http://onlinelibrary.wiley.com/store/10.1111/j.1365-277X.2009.00946.x/asset/j.1365-277X.2009.00946.x.pdf?v=1&t=h8wyba79&s=409ce4157420939348c13c2fcee48fa7cc56be8d

2017-10-24T16:43:15+00:00 0 Comments

Leave A Comment

11 + nine =