prostate-cancer-2346Sendo o cancro da próstata o segundo cancro mais comum nos homens, a sua incidência não é linear nem homogénea entre as várias regiões do mundo. Essas variações dão-nos pistas para o que poderão ser os fatores responsáveis por tais diferenças. Tal como o cancro da mama, o cancro da próstata é maioritariamente mais comum em países desenvolvidos, podendo a sua taxa de incidência ser cerca de 25 vezes superior nestes países em relação aos países de menores rendimentos. As taxas de incidência ajustadas pela idade podem chegar aos mais de 100 casos em cada 100000 habitantes nos EUA contrastando com menos de 10 na maioria da Ásia.

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Incidência de cancro da próstata nas várias regiões do mundo.

Os estudos feitos em populações migratórias apontam para uma forte influência de fatores ambientais no risco do cancro da próstata. Populações que emigraram para os EUA vindos do Japão e da China, com taxas de incidência tradicionalmente muito baixas, viram os números de casos de cancro da próstata aumentar até se aproximarem das taxas de incidência do país de destino em menos de duas geraçõesUm estudo mais recente avaliou a incidência de cancro em indianos no seu país de origem e em países para onde emigraram, concluindo que a incidência é maior nestes últimos, sendo a dieta um fator central nessas diferenças.

Como forma de contrariar estas estatísticas poderíamos pensar que tanto o teste ao PSA como uma terapêutica agressiva logo que seja detetado um cancro da próstata seriam as medidas mais sensatas a tomar. No entanto, nem sempre isso é assim. De facto, o teste ao PSA (antigénio prostático específico) de forma a detetar um eventual cancro da próstata, ao contrário do que possamos julgar, não representa um teste infalível e nem sequer contribui necessariamente para uma diminuição na mortalidade de cancro da próstata. Um estudo recente mostra que ao longo de 7 a 10 anos, o teste de PSA não diminui a taxa de mortalidade em homens com idades iguais ou superiores a 55 anos.

psa-testPor outro lado o teste de PSA não distingue entre os vários tipos de cancro da próstata, podendo levar a tratamentos desnecessários, com as conhecidas consequências para o doente. Um outro estudo recente desenvolvido na Europa, concluiu após 9 anos de observação, que o teste do PSA nos 182 000 sujeitos observados diminuiu a taxa de mortalidade de cancro da próstata em 20% mas que para se evitar uma morte de cancro da próstata, 48 homens teriam de ser tratados. Com base nestes dados recentes e uma vez que não existe forma de saber se o cancro da próstata é de tipo mais agressivo ou de evolução lenta, a American Cancer Society reviu as suas recomendações, passando a sugerir que se discuta abertamente com o doente os riscos e benefícios de se fazer o teste. A ACS não recomenda o teste a homens sem sintomas que não se espere que viva mais de dez anos. A American College of Preventive Medicine não recomenda testes regulares de PSA por considerar que não existem evidências suficientes dos seus benefícios.

Dra. Julia Hayes

Dra. Julia Hayes

No que diz respeito ao tratamento do cancro da próstata, um estudo recente desenvolvido por investigadores do Dana-Farber Cancer Institute e do Massachusetts General Hospital, conclui que homens diagnosticados com cancro da próstata de baixo risco e localizado podem com segurança optar por uma “espera vigilante” ou vigilância ativa em vez de iniciarem imediatamente tratamento, conseguindo com isso melhor qualidade de vida e redução nos custos com a saúde. Os autores do estudo, publicado dia 18 de Junho na revista Annals of Internal Medicine, dizem que os os seus modelos estatísticos mostram que a observação é uma alternativa razoável ao tratamento inicial para cerca de 70% dos homens com um cancro da próstata classificado como baixo risco. A Dra. Julia Hayes, principal autora do estudo, diz mesmo que “cerca de 70% dos homens (nos EUA) tem cancro da próstata de baixo risco e estima-se que 60% desses homens sejam tratados sem necessidade com várias formas de radiação ou através da remoção da próstata”. Um estudo clínico chamado PIVOT concluiu que esses homens têm sensivelmente o mesmo risco reduzido de morte ao longo de um período de 12 anos quer façam uma prostatectomia ou simplesmente observação. O estudo desenvolvido pela equipa de Hayes centrou-se em homens com idades compreendidas entre os 65 e os 75 anos e explorou vários cenários possíveis:

  • Vigilância ativa – os pacientes fazem testes ao PSA a cada 3 meses, exames retais a cada 6 meses e uma biópsia à próstata um ano após e a cada 3 anos. Se se observar que o cancro é mais agressivo do que inicialmente suposto, inicia-se tratamento.
  • Espera vigilante – o paciente é observado sem uma monitorização intensiva sendo aplicado um tratamento paliativo caso existam sintomas.

Depois de calculada a expectativa de vida com qualidade (QALE) para as diferentes estratégias, chegou-se à conclusão  que a observação foi mais eficaz e menos dispendiosa do que o tratamento a cancros da próstata de baixo risco. A espera vigilante representou cerca de 11 meses adicionais de QALE em relação à braquiterapia e 13 meses adicionais de QALE em relação à prostatectomia. De acordo com Hayes, este estudo tira conclusões baseadas nos dados disponíveis ainda limitados, no entanto “parece que a vigilância ativa e a espera vigilante são alternativas seguras ao tratamento inicial do cancro da próstata. Embora seja importante realçar que estas decisões são uma questão de escolha individual“.

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O que este estudo não avalia são os benefícios que poderão advir de se fazer um regime específico através de uma alteração no estilo de vida de forma a conseguirem-se ainda melhores resultados na gestão da doença. De facto, só assim se poderia realmente chamar de vigilância ativa ao se criarem condições para controlar a doença por outros meios além dos tratamentos convencionais. A dieta pode ser um elemento muito importante a ser modificada mesmo após um diagnóstico. De facto, das evidências que existem disponíveis em relação aos fatores de risco associados ao cancro da próstatatodas parecem indicar que uma dieta pobre em gorduras, rica em vegetais e frutos, evitando-se o consumo de alimentos hipercalóricos, carne, produtos lácteos e cálcio, é provavelmente eficaz na prevenção do cancro. Segundo o painel responsável pelo relatório “Food, Nutrition, Physical Activity and the Prevention of Cancer”, as evidências mais consistentes sugerem que alimentos que contêm licopeno ou selénio provavelmente diminuem o risco de cancro da próstata. Por outro, lado alimentos com níveis elevados de cálcio são uma causa provável deste cancro.

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Por se saber isto, e por existir uma correlação entre a grande incidência deste cancro e aquilo que se chama de “dieta ocidental”, composta maioritariamente por produtos de origem animal como a carne, ao mesmo tempo que nos países onde a dieta é composta predominantemente de produtos de origem vegetal a incidência é muito menor, a pergunta impõe-se: será que ao adotarmos uma dieta mais saudável, baseada em produtos de origem vegetal, isso poderá ajudar a combater o cancro da próstata? É justamente para tentar responder a esta pergunta que foi criado um estudo (MEAL – Men’s Eating and Living), financiado pelo National Cancer Institute, no qual vai ser avaliado se uma dieta predominantemente à base de alimentos de origem vegetal e baixa em alimentos de origem animal poderá ajudar a controlar o crescimento do tumor em homens com cancro da próstata numa fase inicial.

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Esta relação já tem sido anteriormente estudada e com bons indicadores de que poderá ser uma via válida de tratamento. De facto, em anos recentes têm-se acumulado evidências que sugerem que a dieta poderá ser uma forma importante de homens com cancro da próstata tomarem um papel ativo na evolução da sua doença e na saúde em geral. Estudos que avaliaram alterações na dieta mostraram benefícios: dos cinco estudos que foram realizados para avaliar o efeito de uma dieta à base de vegetais, quatro mostram ser eficazes no controlo do cancro da próstata (123456). Há mais de 35 anos que Dean Ornish, membro do Intituto de Pesquisa em Medicina Preventiva, em parceria com a Universidade da Califórnia tem vindo a investigar a relação entre as alterações na dieta e estilo de vida e a saúde. Um desses estudos consistiu em acompanhar 93 doentes de cancro da próstata que participaram voluntariamente num estudo no qual se avaliaram os efeitos de uma alteração da dieta e de estilo de vida no controlo da doença. O estudo conclui que pacientes com cancro da próstata de estágio inicial optando por uma vigilância ativa, poderão ser capazes que evitar ou adiar tratamento convencional por pelo menos 2 anos fazendo alterações significativas na sua dieta e estilo de vida.

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Agora, no novo estudo (MEAL), os participantes tentarão consumir 9 porções diárias de frutos e vegetais diariamente, assim como 2 porções de cereais integrais e uma porção de leguminosas. Este estudo clínico inclui homens com idades compreendidas entre os 50 e os 80 anos que tenham um tumor de dimensões reduzidas, numa fase inicial e que tenham optado por ter a sua condição seguida de forma vigilante em vez de se submeterem a um tratamento de imediato. Durante dois anos, os investigadores irão recolher sangue de forma a verificarem os níveis de antioxidantes e nutrientes assim como os níveis de PSA e biópsias, de forma a avaliarem se os cancros estão a progredir. A fase preliminar deste estudo mostrou resultados favoráveis. Neste momento, a fase III do estudo está a decorrer e as inscrições estão abertas para quem quiser participar. Para saber mais como prevenir o cancro da próstata, pode fazê-lo aqui.

 

Referências:

http://annals.org/article.aspx?articleid=1696642

http://www.dana-farber.org/Newsroom/News-Releases/observation-is-safe-cost-saving-in-low-risk-prostate-cancer.aspx

http://www.health.harvard.edu/healthbeat/can-diet-help-fight-prostate-cancer

http://clinicaltrials.gov/ct2/show/NCT01238172?term=NCT+01238172&rank=1

http://www.cancer.gov/clinicaltrials/search/view?cdrid=63882&version=HealthProfessional

http://cancer.ucsd.edu/coping/diet-nutrition/healthy-eating-program/Pages/MEAL.aspx

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1972548/

http://ije.oxfordjournals.org/content/37/1/147.long

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19297565

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2017-10-24T16:43:14+00:00 0 Comments

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