childAlguns dos tratamentos para o cancro com maior sucesso sucedem em cancros pediátricos. O que ainda não se conhece inteiramente são as consequências a longo prazo para a saúde desses sobreviventes. Em parte, isso deve-se ao facto de ainda não ter passado tempo suficiente desde que se iniciaram estes tratamentos para conhecermos a total extensão das suas sequelas muitos anos depois.

Uma análise recente que inclui mais de 1700 sobreviventes adultos de cancros pediátricos, mostrou existir uma percentagem muito elevada de sobreviventes com uma ou mais condições crónica de saúde. De acordo com o estudo publicado no JAMA, existe um prevalência estimada cumulativa para qualquer condição de saúde crónica de cerca de 95% aos 45 anos. O artigo assinala que “a terapia curativa para os cancros pediátricos produziu uma população em crescimento de adultos anteriormente tratados a cancros infantis, os quais estão em risco de problemas de saúde que parecem aumentar com o envelhecimento. A prevalência de efeitos tóxicos relacionados com os tratamentos do cancro não foram ainda bem estudados“.

Melissa M. Hudson

Melissa M. Hudson

A investigadora e médica Melissa Hudson do St. Jude Children’s Research Hospital, juntamente com a sua equipa, foi a principal autora do estudo que buscou determinar o estado de saúde de sobreviventes a longo prazo de cancros infantis e a prevalência de complicações do tratamento após exposição aos mesmo. Os cerca de 1713 participantes adultos sobreviventes de cancro foram avaliados entre 2007 e 2012, tendo sido diagnosticados e tratados entre 1962 e 2001. Foram avaliados os efeitos adversos para a saúde em função de cada órgão.

Os investigadores descobriram que as funções pulmonares, auditivas, cardíacas, endócrinas e do sistema nervoso foram as mais afetadas (detetados em cerca de 20% ou mais de participantes em risco). A prevalência de sequelas para a saúde foi mais alta para as funções pulmonares (função pulmonar anormal, 65,2%), auditivas (perda de audição, 62,1%), endócrinas ou reprodutivas (62%), cardíacas (qualquer condição cardíaca, tal como desordens nas válvulas, 56,4%) e neurocognitivas (48%).

8934762301_385741Entre os sobreviventes em risco de sequelas após tratamentos de cancro específicos, a prevalência cumulativa estimada aos 50 anos foi de 21,6% para a cardiomiopatia, 83,5% para desordens nas válvulas do coração, 81,3% para disfunção pulmonar, 76,8% para a disfunção na pituitária, 86,5% para a perda de audição, 31,9% para problemas nos ovários e 40,9% para o cancro da mama.

De acordo com os autores do estudo clínico, 98,2% dos participantes apresentaram um problema de saúde crónico. A prevalência cumulativa geral de uma condição crónica foi estimada ser de 95,5% aos 45 anos e 93,5% 35 anos depois do diagnóstico do cancro. Aos 45 anos a prevalência estimada de uma condição crónica séria ou com risco de morte é de 80,5%.

O estudo conclui dizendo que a percentagem de sobreviventes com uma ou mais condições crónicas de saúde é extraordinariamente alta, o que exige que se encontre uma forma de diminuir estes efeitos e aumentar a qualidade de vida.

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Jorgen Olsen

Uma das sequelas possíveis dos tratamentos de cancro convencionais, por paradoxal que possa parecer, são cancros secundários. Um estudo, publicado em 2009, liderado pelo Dr. Jørgen Olsen da Danish Cancer Society, avaliou 47697 pacientes tratados a cancros infantis nos países nórdicos. Tendo sido o maior estudo do género alguma vez realizado, o mesmo concluiu que aqueles que sobreviveram ao cancro em crianças, têm 3 a 3,5 vezes maiores probabilidades de desenvolver um cancro secundário mais tarde na vida.

Na maioria dos estudos deste tipo, o acompanhamento posterior aos sobreviventes não passava de algumas décadas. Neste caso foram apresentados resultados da incidência de cancros secundários de um acompanhamento ao longo da vida total dos sobreviventes entre 1943 e 2005. Os cancros secundários em sobreviventes de cancros infantis têm sido reconhecidos como sendo o resultado de sequelas causadas pelos tratamentos desde os anos 70. De acordo com os investigadores, os dados fornecidos para este estudo são demasiado imprecisos para se estabelecer uma relação mais específica entre os tipos de tratamento e cancros específicos. Embora a informação detalhada dos tratamentos não estivesse disponível neste estudo, um estudo anterior e outros semelhantes mostraram que a radioterapia e quimioterapia utilizadas para o tratamento de cancros infantis primários, têm um papel muito significativo na ocorrência de cancros secundários mais tarde na vida. De acordo com o estudo, mais de 1/4 dos casos de cancros secundários estavam localizados no cérebro. Dos outros, cerca de 8% ocorreram nos tecidos hematopoiéticos e 10% dos casos foram de cancro da mama. O estudo conclui que no futuro estes resultados deverão ser tomados em conta nos tratamentos e na forma de acompanhamento posterior.

cancrossecundarios

O que estes estudos nos vêm dizer é que o tratamento do cancro não se pode limitar às terapêuticas disponíveis, devendo ser dada toda a atenção ao período de sobrevivência. Esse será um período no qual se deve investir em alterações no estilo de vida de forma a reduzir o impacto dos tratamentos e as possibilidades de recidiva futura. De acordo com o relatório “Food, Nutrition, Physical Activity, and the Prevention of Cancer: a Global Perspective”, cerca de 30 a 40% de todos os cancros poderiam ser evitados se seguíssemos as suas recomendações. A última recomendação deste relatório passa justamente por sugerir aos sobreviventes de cancro que as sigam de forma a reduzir as probabilidades de recidiva. De uma forma ou de outra, é na infância que se encontra a génese da maior parte dos problemas de saúde e em particular do cancro. Se antes de se ter um cancro já seria importante ter um estilo de vida orientado para a prevenção, mais assim será após um episódio da doença.

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Vários estudos contribuem para a compreensão da importância da dieta na infância para problemas que surgem muitos anos depois. Um estudo desenvolvido ao longo de 60 anos do qual participaram 4999 voluntários, chegou à conclusão que aqueles que consumiram mais frutos durante a infância tinham 38% menos probabilidades de desenvolver cancro em adultos. Um outro estudo baseado na mesma amostra de sujeitos também conclui que o consumo de leite na infância pode aumentar em 3 vezes as probabilidades de cancro colo-retal em idade adulta. Uma das possíveis explicações dos mecanismos biológicos para isso poderá ter a ver com o facto do consumo de laticínios ser acompanhado de um aumento dos níveis do fator de crescimento IGF-1. Esta substância promove o crescimento dos tecidos e a sua circulação elevada no organismo está associada a um risco superior de vários cancros através da inibição da apoptose, proliferação elevada das células e promoção da angiogénese.

Eat-your-fruits-and-vegetablesAinda a partir do mesmo grupo de sujeitos estudados, outro estudo sugere que uma dieta hipercalórica na infância aumenta o risco de cancro em idade adulta. Esta relação entre excesso de calorias, o que caracteriza a nossa dieta padrão, e o cancro está em concordância com os estudos feitos em animais nos quais se observa que restrição de calorias está associada a uma incidência inferior de cancros. O estudo conclui que estas evidências para os efeitos a longo prazo da dieta infantil confirmam a importância de uma nutrição de qualidade na infância e sugerem que a grande incidência de cancros que temos pode ter origem nos primeiros anos de vida.

Todos os sinais apontam na mesma direção: a dieta tem uma importância central na génese das doenças crónicas futuras e em particular no cancro. Em relação às crianças que tenham passado pelo calvário que significa essa difícil doença, o melhor que lhes podemos dar é armas que os defendam de se depararem com o inimigo que sorrateiramente se tenha escondido à espera de uma oportunidade para se mostrar novamente. Dar-lhes bons alimentos e uma vida saudável é meio caminho andado para o impedir e para uma vida mais longa e próspera. Afinal, é de pequenino que se come o pepino!

2017-10-24T16:43:14+00:00 0 Comments

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