iPhone3GS3Em todo o mundo existem cerca de 5 mil milhões de utilizadores de telemóvel. Em 20 anos este aparelho de comunicação passou a ser um objeto quase obrigatório de todos nós. A exposição às suas radiações é praticamente omnipresente sendo que não existe ainda conhecimento suficiente para sabermos todos os riscos que estão envolvidos na sua utilização. Existem no entanto já evidências suficientes (embora limitadas) para esta ter sido classificada em 2011 pela IARC (International Agency for Research on Cancer), uma organização que faz parte da OMS, como possivelmente cancerígena.

De acordo com a OMS/IARC, os campos eletromagnéticos da radiofrequência foram classificados comopossivelmente cancerígenos para os humanos” (Grupo 2B), baseado em evidências que sugerem um risco superior de glioma (cancro no cérebro) associado à utilização de telemóvel.

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Em Maio de 2011, um Grupo de Trabalho de 31 cientistas de 14 países encontrou-se na IARC em Lyon (França) de forma a identificar o risco de cancro na exposição aos campos eletromagnéticos das radiofrequências. Após analisarem toda a evidência disponível na literatura publicada até à data, concluíram que esta é limitada entre utilizadores de telemóvel relativamente ao glioma e neuroma acústico e inadequada para se tirar uma conclusão para outros tipos de cancros.

Embora o Grupo de Trabalho não tenha quantificado o risco, um estudo mostrou um aumento de 40% no risco de gliomas na categoria de utilizadores intensivos (cerca de 30 minutos de utilização por dia durante um período superior a 10 anos).

Dr. Jonathan Samet

Dr. Jonathan Samet

O Dr. Jonathan Samet, Diretor do Grupo de Trabalho, refere que “a evidência, embora esteja ainda em progresso, é forte o suficiente para suportar uma conclusão e uma classificação como 2B. Essa conclusão significa que poderá haver algum risco e portanto precisamos manter uma vigilância atenta na relação entre telemóveis e risco de cancro”. O Diretor da IARC, Cristopher Wild, refere a importância de se fazer mais pequisa acerca das possíveis consequências de uma utilização intensiva e de longa duração de telemóveis. Wild sugere que se devam tomar medidas de precaução para reduzir o risco, tais como utilizar as mensagens escritas ou utilizar um sistema de mãos-livres.

Em resumo, a classificação  da utilização de telemóvel como possivelmente cancerígena (2B) significa que poderá haver algum risco mas que ainda não existem evidências suficientes para se concluir que exista uma relação causal, sendo necessária mais investigação para se chegar a uma conclusão definitiva. De forma a avaliar essa relação, um estudo prospetivo sobre a utilização do telemóvel e os seus efeitos a longo-prazo para a saúde, teve início na Europa em Março de 2010. Este estudo, conhecido como COSMOS recrutou cerca de 290000 utilizadores de telemóvel com mais de 18 anos que acompanhará durante 20 a 30 anos.

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Outro estudo atualmente a decorrer trata-se de um estudo de caso-controle conhecido como Mobi-Kids. Este estudo incluirá cerca de 2000 jovens entre os 10 e os 24 anos com tumores cerebrais recentemente diagnosticados e 4000 pessoas jovens saudáveis. O objetivo será aprender acerca dos fatores de risco para o cancro infantil do cérebro. Esperam-se resultados em 2016.

Embora em 2011 a IARC tenha classicado a radiação eletromagnética emitida pelos telemóveis como “possivelmente cancerígena em humanos” (2B), análises mais recentes não consideradas pela IARC sugerem que o risco de cancro no cérebro é significativamente maior para aqueles que utilizam telemóvel há pelo menos uma década. Estudos realizados na Suécia indicam que aqueles que começam a utilizar telemóveis ou telefones sem fio regularmente antes dos 20 anos têm um risco mais de 4 vezes superior de desenvolverem glioma ipsilateral. Embora o cancro no cérebro seja a “ponta do iceberg” dos efeitos destas radiações na nossa saúde, outros efeitos prejudiciais podem acontecer no resto do corpo. Esta revisão realizada na Suécia fortalece a indicação de se vir a concluir que a radiação de telemóveis e telefones sem fio poderem ser classificados como “provavelmente cancerígenos em humanos“.

Um estudo muito recente desenvolvido na Universidade de Tel Aviv poderá acrescentar novos dados na investigação acerca dos riscos da utilização do telemóvel. O Dr. Yaniv Hamzany, autor do estudo, procurou por indicadores na saliva dos utilizadores de telemóvel. Uma vez que este é utilizado perto da glândula salivar durante o seu uso, os investigadores colocaram a hipótese de que a saliva pudesse revelar alguma relação com o desenvolvimento de cancro.

cell phone-2Quando foram comparados utilizadores intensivos de telemóvel com não-utilizadores, descobriram que a saliva dos primeiros mostraram maiores indicadores de stress oxidativo, um processo que danifica todos os aspetos da células humana, incluindo o ADN, através do desenvolvimento de peróxido tóxico e radicais livres. Esse stress oxidativo é considerado um fator de risco para o cancro.

Para o estudo, os investigadores examinaram o conteúdo de 20 utilizadores intensivos com uma utilização mínima de 8 horas por mês. Quando comparados com indivíduos que não utilizam telemóvel ou que o utilizam exclusivamente para envio de mensagens, apresentaram um aumento em todas as medições de stress oxidativo da saliva estudados. O Dr. Hamzany comenta que “isto sugere que existe um considerável stress oxidativo nos tecidos e glândulas perto do telemóvel quando este está a ser utilizado. O dano causado pelo stress oxidativo está relacionado com mutações genéticas e celulares o que pode levar ao desenvolvimento de tumores.

In-the-News-Cell-phone-Cancer-53111Esta investigação procura conhecer melhor as consequências da utilização de telemóvel, especificamente os efeitos da radiação eletromagnética não ionizante nos tecidos humanos localizados perto do ouvido. Embora estes resultados não revelem uma relação causal definitiva entre a utilização do telemóvel e o cancro, aumentam o corpo de evidências que sugerem que a utilização de telemóvel a longo-prazo poderá ser prejudicial e apontam uma nova direção para futuras investigações.

Outro estudo anterior havia descoberto que cerca de 50 minutos de utilização de telemóvel elevou o metabolismo de glicose no cérebro de forma significativa nas áreas mais perto da antena do aparelho. A elevação no metabolismo da glicose no cérebro, um indicador de atividade nas células cerebrais, estava correlacionado com a intensidade do campo eletromagnético emitido pelo telemóvel nessas regiões. embora ainda não se saiba o significado clínico desse efeito, os resultados mostram que o cérebro humano é sensível aos efeitos dos campos eletromagnéticos emitidos pelos telemóveis.

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Os telemóveis comunicam através da transmissão de ondas de rádio através de uma rede de antenas fixas. As ondas de radiofrequência são campos eletromagnéticos e ao contrário de radiação ionizante como os raios-X ou raios gama, não podem quebrar ligações químicas nem causar ionização no organismo.

Os telemóveis operam em frequências entre os 450 e os 2700 MHz. O aparelho só transmite energia quando está ligado. Essa energia diminui rapidamente com a distância do aparelho. Alguém que utilize um telemóvel a 30-40 cm do seu corpo (tal como quando escreve mensagens, utiliza internet ou utiliza um sistema de mãos-livres) terá uma exposição muito menor aos campos de radiofrequência quando comparado com um utilizador que coloque o aparelho perto da sua cabeça.

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A exposição à radiação é também diminuída limitando-se o número e a duração das chamadas. Utilizar o telemóvel em áreas de boa receção também diminui a exposição por permitir que o telemóvel comunique sem tanta intensidade de sinal. A palavra de ordem como precaução na utilização de telemóveis e telefones sem fio deverá ser “manter a maior distância possível do corpo“, tanto em conversação como em repouso.

 

 

Referências:

http://www.iarc.fr/en/media-centre/pr/2011/pdfs/pr208_E.pdf

http://monographs.iarc.fr/ENG/Classification/ClassificationsAlphaOrder.pdf

http://www.iarc.fr/en/media-centre/iarcnews/2011/Intr_Monog102.pdf

http://www.pathophysiologyjournal.com/article/S0928-4680(13)00003-5/fulltext

http://ehtrust.org/

http://ije.oxfordjournals.org/content/39/3/675.full

http://www.cancer.gov/newscenter/newsfromnci/2011/IARCcellphoneMay2011

http://www.niehs.nih.gov/health/topics/agents/cellphones/index.cfm

http://www.bnl.gov/newsroom/news.php?a=11239

http://www.niehs.nih.gov/health/assets/docs_a_e/cell_phone_radiofrequency_radiation_studies_508.pdf

http://www.cancer.gov/cancertopics/factsheet/Risk/cellphones

http://pressroom.cancer.org/index.php?s=43&item=312

http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs193/en/index.html

http://www.ukcosmos.org/health.html

http://transition.fcc.gov/oet/ea/fccid/

http://www.cancer.gov/cancertopics/factsheet/Risk/magnetic-fields

2017-10-24T16:43:14+00:00 1 Comment

One Comment

  1. isabel ferrão 5 Agosto, 2013 at 10:38 - Reply

    Gabriel, no meu prédio existem antenas fixas da Vodafone que a administração autorizou a sua instalação no telhado em troco de um valor monetário. O prédio tem 12 andares e eu vivo no 11º esquerdo. Estou farta de pensar nisso e não sei até que ponto é agressivo para a saúde. Nenhuma resposta que me foi dada me convenceu.

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