article-2087167-0D77E375000005DC-322_233x343Uma das áreas de maior incerteza e falta de consenso na prevenção do cancro tem sido o papel do açúcar no desenvolvimento e no risco de vários cancros. O maior relatório acerca da relação entre dieta e cancro, na sua última publicação em 2007 não inclui o índice glicémico ou a carga glicémica como fator de risco provável ou convincente para nenhum dos cancros analisados. Muito recentemente, o Projeto de Atualização Contínua (CUP) da WCRF/AICR, publicou os últimos resultados da análise aos fatores de risco relacionados com o cancro do endométrio. Em 2007, os fatores de risco conhecidos eram os seguintes:

  • Aumenta o risco:
    • Gordura corporal – Convincente
    • Gordura abdominal – Provável
    • Carnes vermelhas – Limitada
  • Diminui o risco:
    • Atividade física – Provável
    • Vegetais não-amiláceos – Limitada

WCRF Endométrio

Este ano, após revisão de novos resultados de estudos publicados ao longo dos últimos anos, a lista de fatores de risco foi atualizada, da qual destacamos a carga glicémica como um fator de risco provável para o cancro do endométrio. É a primeira vez que as evidências acumuladas são fortes o suficiente para incluir nos relatórios do CUP uma ligação entre a carga glicémica e o risco de cancro, deixando assim para trás o argumento de que o consumo de açúcar não influencia diretamente o risco desta doença. De facto, vários estudos recentes têm focado a relação entre a carga glicémica e o risco de cancro, mostrando o gradual interesse e consenso acerca dessa relação.

A carga glicémica é a medida dos níveis de açúcar no sangue após a ingestão de um alimento que contenha 50 gramas de hidratos de carbono. A carga glicémica leva em consideração uma porção típica de um alimento, ou seja, a quantidade real que uma pessoa consumiria desse alimento. Quando consumimos um alimento com carga glicémica alta, os níveis de açúcar e os níveis de insulina aumentam. A insulina mobiliza a glicose para o interior das células para que estas produzam energia.

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Uma das coisas que se conhecem acerca da insulina, é de que se trata de um promotor de crescimento celular. Esta hormona, juntamente com outras que são produzidas quando os seus níveis estão elevados (como o IGF-1) pode promover o crescimento mais rápido das células de cancro. Ao longo do tempo, ter níveis elevados de insulina produz um ambiente metabólico que promove o crescimento das células de cancro.

Outros dos fatores acrescentados à tabela de fatores de risco do cancro do endométrio são:

  • Aumenta o risco:
    • Carga glicémica – Provável
  • Diminui o risco:
    • Café (não relacionado com a cafeína)

WCRF Endométrio CUP

Embora mais estudos sejam necessários para se chegar a um resultado definitivo, como conclusão a WCRF recomenda que se mantenha um peso saudável e fazer exercício físico regular para reduzir o risco de cancro do endométrio. Além disso fazer uma dieta rica em vegetais e pobre em gordura saturada e acúcares refinados é provavelmente protetor contra o cancro.

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Há muito tempo que se sabe que as células de cancro consomem grandes quantidades de açúcar para permanecerem vivas e proliferarem. Enquanto as células saudáveis geram energia utilizando algum açúcar e muito oxigénio, as células de cancro utilizam virtualmente nenhum oxigénio e muito açúcar para produzirem energia. Desde os anos 30 que sabemos que o açúcar está intimamente relacionado com o metabolismo das células de cancro. Na realidade, a glicose é a matéria prima que serve de base para o combustível de todas as células, saudáveis ou não. Mas a forma como as células de cancro obtêm energia a partir dela é diferente.

ottoO biólogo Otto Warburg ganhou em 1931 o Prémio Nobel da Medicina por descobrir que o metabolismo dos tumores está inteiramente dependente do consumo de glicose. Enquanto as células saudáveis produzem energia (ATP) a partir da oxidação da glicose, utilizando para isso o oxigénio disponível, as células de cancro fazem-no através da fermentação, excluindo assim a necessidade de oxigénio do processo. Por ser um processo menos eficaz para a obtenção de energia isso significa que vão precisar de mais quantidade de glicose para produzir a mesma energia. Este mecanismo conhecido por glicólise é aliás explorado para servir de base para o exame PET (tomografia por emissão de positrões). Após a introdução de glicose devidamente preparada no organismo, a máquina do exame consegue detetar quais as regiões do corpo que consomem mais glicose. Se uma das áreas se destacar a causa mais provável é tratar-se de cancro.

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Embora ainda não exista consenso na comunidade científica em relação ao açúcar poder ser um fator de risco para vários tipos de cancro, independentemente da obesidade, talvez não devesse representar uma grande surpresa o facto de níveis elevados de açúcar no sangue estarem associados a um risco superior de cancro, de acorro com algumas evidências que o confirmam. O consumo de alimentos com índice glicémico (IG) elevado (quando consumidos aumentam rapidamente os níveis de açúcar no sangue) está associado ao risco de vários cancros:

  • Cancro da mama: uma dieta com um índice glicémico elevado pode estar relacionado com um risco superior de cancro da mamaOutro estudo chegou às mesmas conclusões do anterior.
  • Cancro da próstata, colo-retal e do pâncreas: uma dieta com um índice glicémico elevado pode estar relacionado com um risco superior de cancro da próstata, colo-retal e do pâncreas: Quando comparados os grupos de sujeitos com maior e menor carga glicémica nas suas dietas, aqueles pertencentes ao primeiro apresentam neste estudo 26% maior probabilidade de desenvolver cancro da próstata, 28% maior probabilidade de cancro colo-retal e 41% maior probabilidade de cancro do pâncreas.
  • Cancro colo-retalum estudo sugere que aqueles que apresentavam valores superiores de carga glicémica e hidratos de carbono revelaram um risco 80% superior de recidiva ou morte quando comparados com aqueles que apresentavam valores inferiores.

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Além de aumentar os níveis de insulina, consumir alimentos com um IG alto leva igualmente à produção de uma outra hormona com propriedades proliferativas e anti-apoptóticas, o IGF-1, o qual está também associado a um maior risco de vários cancros:

  • Cancro da mama: o Centro Europeu sobre Cancro e Nutrição (EPIC) verificou que os níveis elevados de IGF-1 estavam associados a 40% de risco superior de cancro da mama em mulheres na pós-menopausa. Uma meta-análise que reuniu os dados obtidos de 17 diferentes estudos prospetivos, concluiu que as mulheres com níveis superiores de IGF-1 no sangue tinham um risco 28% maior de ter cancro da mama independentemente de terem tido ou não a menopausa. No Nurses’ Health Study, os níveis elevados de IGF-1 foram associados a um risco superior de cancro da mama, duas vezes maior em mulheres na pré-menopausa.
  • Cancro da próstata: uma meta-análise a 42 estudos diferentes concluiu que os níveis elevados de IGF-1 em circulação estão associados a um risco superior de cancro da próstataUm estudo sugere que níveis elevados de IGF-1 estão associados a um risco 5.1 vezes superior de cancro da próstata de estágio avançado, sendo de 9.5 vezes superior quando associado a níveis baixos de IGFBP-3.
  • Cancro colo-retal: estudos epidemiológicos, clínicos e de laboratório sugerem que níveis elevados de IGF-1 estão associados a um risco superior de cancro colo-retal. Uma análise a vários estudos conclui que a interação entre a insulina, o IGF-1 e as suas proteínas de ligação aumentam o risco de cancro colo-retal.

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Referências:

http://www.dietandcancerreport.org/expert_report/report_contents/index.php

http://www.wcrf.org/cancer_research/cup/key_findings/endometrial_cancer.php

http://www.aicr.org/cancer-research-update/september_11_2013/CRU_glycemic_load_endometrial_cancer_risk.html

http://www.wcrf.org/blog/preventing-endometrial-cancer-updating-the-evidence/

http://www.dietandcancerreport.org/cancer_resource_center/downloads/chapters/chapter_07.pdf

http://www.hopkinsmedicine.org/news/media/releases/understanding_cancer_energetics

http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/medicine/laureates/1931/warburg-bio.html

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22760570

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22497978

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22831983

http://www.eurekalert.org/pub_releases/2012-11/dci-shc110612.php

http://erc.endocrinology-journals.org/content/13/2/593.long

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3113287/?tool=pubmed

http://www.channing.harvard.edu/nhs/?page_id=197

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/9593409

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19142965

http://jnci.oxfordjournals.org/content/94/14/1099.long

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15562834

http://link.springer.com/article/10.1007%2Fs00384-005-0776-8?LI=true

http://jnci.oxfordjournals.org/content/94/13/972.long

 

2017-10-24T16:43:13+00:00 0 Comments

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