120910122114E se no centro de um tumor existir um núcleo duro de células capazes de resistir a todos os tratamentos existentes, que dão origem a todas as células malignas, suportam o crescimento dos tumores e criam metástases? Estas células-semente são as chamadas células estaminais de cancro, e as evidências recentes sugerem que podem estar presentes em vários tipos de cancro. Se assim for, as terapias convencionais pouco poderão fazer para evitar que os tumores, mesmo que reduzidos a quase nada, possam ressurgir, alimentados por estas células quimio-resistentes.

Tal como as células estaminais, as células estaminais de cancro são células não-especializadas que se podem dividir e renovar por longos períodos de tempo e que dão origem a células especializadas. As pesquisas mais recentes têm confirmado a resistência destas células aos tratamentos com quimio e radioterapia.

A teoria das células estaminais de cancro foi reforçada quando em 1994 John Dick demonstrou que a Leucemia Mielóide Aguda obedece a uma organização hierárquica que tem origem numa célula hematopoiética primitiva. Esta descoberta popularizou um conceito já antigo: o de que o crescimento do cancro poderá estar dependente de uma pequena fração de células progenitoras. Estas células de cancro com propriedades de auto-renovação e pluripotência são geralmente chamadas de células estaminais de cancro.

Células estaminais de cancro mantêm e suportam o tumor. Terapias convencionais não conseguem eliminar estas células.

Células estaminais de cancro mantêm e suportam o tumor. Terapias convencionais não conseguem eliminar estas células.

 

Existem evidências cada vez mais claras de que as células estaminais de cancro são cruciais para a formação de tumores. Não só podem renovar-se, como gerar todos os outros tipos de células observadas num tumor. Dessa forma, deverá ser possível tratar o cancro caso sejam eliminadas todas as células estaminais de um tumor, em vez de se atacar todas as células desse tumor, como acontece até agora.

Já se mostrou que estas células são capazes de iniciar a leucemia. Têm também surgido evidências que suportam a teoria de que estas células estaminais estejam presentes e promovam o crescimento de outros cancros, tais como: cérebro, mama, cólon, cabeça e pescoço, pulmão, fígado, melanoma, pâncreas e próstata, entre outros.

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http://docs.abcam.com/pdf/cancer/biology-cancer-stem-cells-poster.pdf

O conceito de células de cancro estaminais tem profundas implicações pbara o tratamento e prevenção do cancro. A falta de eficácia das quimioterapias no tratamento de cancros em fase avançada e metastizados requer novas abordagens que consigam alcançar e destruir especificamente a população de células estaminais de cancro.

Enquanto não surgem tratamentos que consigam eficazmente eliminar estas células, vários estudos têm mostrado propriedades quimiopreventivas muito promissoras contra as células estaminais de cancro em componentes naturalmente presentes em vários alimentos. Já são conhecidas várias propriedades quimiopreventivas do sulforafano, fitoquímico presente em crucíferas como os brócolos, às quais acrescenta-se a capacidade de eliminar essas células.

Um estudo recente testou as propriedades do sulforafano, fitoquímico presente nos brócolos ou nos germinados dos brócolos, tanto em culturas de células como em modelo animal. Os autores do estudo observaram como o sulforafano foi capaz de destruir as células estaminais de cancro evitando assim que novos tumores crescessem.

De acordo com o autor Duxin Sun, “o sulforafano tem sido estudado pelos seus efeitos no cancro, mas este estudo mostra que os seus benefícios passam por inibir as células estaminais de cancro da mama. Esta descoberta sugere o potencial do sulforafano ou do extrato de brócolos em prevenir ou tratar o cancro atingindo seletivamente as células de cancro estaminais“.

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No estudo, os investigadores injetaram várias concentrações de sulforafano a partir de extrato de brócolos em ratos com cancro da mama. Após observação, verificou-se que a população de células estaminais de cancro diminuiu de forma muito significativa com o tratamento com sulforafano, sem consequências para as células normais. Além disso, as células de cancro dos ratos tratados com sulforafano foram incapazes de gerar novos tumores. Em laboratório com culturas de células os resultados foram iguais.

Ainda outro estudo desenvolvido na Universidade de Heidelberg mostrou que o sulforafano não só é capaz de inibir as células estaminais de cancro no pâncreas e na próstata como potencia a ação citotóxica de certos agentes quimioterapêuticos, aumentando significativamente a eficácia destes tratamentos. De acordo com os investigadores a combinação destes dois compostos poderia aumentar a eficácia e reduzir a dose de fármacos necessários para o tratamentos destes cancros.

Crucíferas

Crucíferas

A equipa de investigadores desta Universidade foi a primeira a demonstrar que o sulforafano ataca as células estaminais de cancro do pâncreas e portanto sensibiliza-as para a quimioterapia. De acordo com os autores, uma dieta rica em vegetais ricos em sulforafano pode ajudar na inibição das células estaminais do cancro.

Young broccoli sprouts

Brócolos Germinados

As crucíferas pertencem a uma família de vegetais com características únicas, responsáveis pelas suas conhecidas propriedades quimiopreventivas. Estes vegetais são assim chamados pelo facto de a flor de cada um deles ter pétalas espaçadas simetricamente em forma de cruz. Aquilo que os distingue dos outros vegetais passa por serem uma fonte privilegiada de uma classe específica de fitoquímicos, os glucosinolatos. Quando as paredes das suas células se partem, ao serem esmagados ou cortados, dá-se uma reação química através da exposição à enzima mirosinase que transforma estes compostos em isotiocianatos (ITC), moléculas com uma ação anticancerígena poderosa e comprovada. Mais de 120 isotiocianatos foram identificados, todos com mecanismos de ação e benefícios distintos.

mirosinaseQuando um glucosinolato reage com a mirosinase, presente num compartimento diferente da célula vegetal, dá-se a formação de vários isotiocianatos e indóis específicos consoante o glucosinolato. Quando cortamos, esmagamos ou mastigamos, por exemplo, brócolos, a célula vegetal quebra-se fazendo com que o glucosinolato (glucorafanina) entre em contacto com a mirosinase que o transforma em sulforafano. Isso quer dizer que para se obterem as suas propriedades, estes vegetais deverão ser consumidos idealmente crus. Uma forma eficaz de obtermos os seus benefícios é consumir os germinados de brócolos, com uma concentração muito superior de glucosinolatos e mirosinase. O sulforafano apresenta várias propriedades importantes na proteção contra o cancro, tais como:

Embora não existam ainda recomendações específicas para o consumo de vegetais crucíferos, de acordo com as evidências disponíveis, estima-se que sejam necessárias 5 porções por semana destes vegetais de forma a se obterem os seus benefícios quimiopreventivos. Exemplos de vegetais ricos em glucorafanina, glucosinolato precursor do sulforafano:

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Brócolos germinados, Brócolos, Couves de Bruxelas, Couve-Lombarda

Outras substâncias presentes em certos alimentos têm igualmente mostrado ter a capacidade de interferir com as células estaminais de cancro, tais como: curcumina (açafrão-das-Índias), quercetina (maçãs e cebolas) e EGCG (chá verde).

 

Referências:

http://www.cardiff.ac.uk/research/cancerstemcell/

http://clincancerres.aacrjournals.org/content/16/9/2580.long

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23902242

http://www.nature.com/nature/journal/v414/n6859/full/414105a0.html

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17645413

http://docs.abcam.com/pdf/cancer/biology-cancer-stem-cells-poster.pdf

http://www.nature.com/leu/journal/v24/n11/full/leu2010159a.html

http://www.hindawi.com/journals/jo/2011/941876/

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17002552?dopt=AbstractPlus

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2739000/

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/7509044?dopt=AbstractPlus

http://www.nature.com/mt/journal/v19/n1/full/mt2010216a.html

http://cancerres.aacrjournals.org/content/70/12/5004

http://www.klinikum.uni-heidelberg.de/index.php?id=111688&L=1

 

 

2017-10-24T16:43:13+00:00 1 Comment

One Comment

  1. Maria Luisa Serra 9 Dezembro, 2013 at 0:03 - Reply

    É uma informação muito importante. Alerta para a camada mais jovem que não come verduras e legumes. Vou partilhar com muito prazer.

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